26/04/2011

"Compartilhar"

Estou aqui, sentada entre as folhas de sempre. Hoje porém nao é um dia como todos os outros pois aconteceu algo inesperado, uma surpresa que creio boa mas que nao sei ainda como interpretar.
Sempre pensei de ser a unica que tem sonhos diferentes, que aproveita do silencio da madrugada para recortar um cantinho de mundo particular. Sempre achei de estar sozinha nisso, a unica que precisa fugir com a imaginaçao... mas hoje escobri que nao.
Inicialmente sentì o impulso de me aproximar, de perguntar algo, verificar, mas depois decidi que nao era uma boa ideia invadir o mundo particular dele. Fiquei entao observando sem dizer nada, parei apenas um tempinho. Ele estava ai, poucas folhas mais em baixo, olhando para a alvorada com o ar de quem a conhece bem. Provavelmente escolhe esses momentos para refletir e deixar fluir os pensamentos enquanto o novo dia filtra atraves da neblina, como faço eu.
Mee'lz.
Assim se chama, se nao me engano: Mee'lz.
Faz parte da colonia, tem mais ou menos a minha idade mas nunca falei com ele. Parece nao ter nada de especial, como afinal todos os outros, e eu também. Fala pouco e faz as coisas que todos os outros fazem entao nunca iria imaginar de ve-lo acordado nessa hora, sentado aì, nas folhas baixas, com aquele olhar entre o sonhador e o melancolico. Ele nao me viu, mas isso nao tem importancia: o que tem importancia è que eu vi ele, e agora sei que nao sou tao estranha como eu pensava.
Nunca falei com ninguem sobre meus pensamentos "diferentes", e minhas alvoradas aqui sozinha. Nunca contei do Grande Bruz e da morte dele, das suas palavras. Sempre tive medo de falar, de compartilhar meus pensamentos com outros que nunca nem pensariam de ultrapassar o Muro e poder viajar além do nosso mundo conhecido. Nunca compartilhei nada disso, até porque poderia ser perigoso por uns lados... mas como desejei pode-lo fazer! Como desejei nao me sentir sozinha e presa dentro uma dimensao que ninguem compreende, e quem sabe como seria poder compartilhar nao somente os pensamentos...

Imaginei as vezes como poderia ser viajar com alguém, fazer esforços juntos e nao ficar sozinha numa empresa que talvez nao tem retorno. Penso que bastaria somente que alguem abrisse os olhos para entender e poder seguir o caminho, mudar a visao e abandonar a velha vida junto comigo. De uma certa forma me fascina o fato de estar sozinha e ser a unica que pode viver uma aventura grande além dos horizontes de todos, mas também seria lindo poder me aventurar numa terra desconhecida com alguem ao meu lado.
Alguem que ultrapasse o Muro comigo.
Quando imagino isso, porem, as duvidas que ja tenho se multiplicam, pois se eu estiver errada, se a realidade fosse muito diferente dos meus pensamentos, o que seria do meu parceiro? Se eu desse um passo para tras, se eu vacilar, se eu nao tivesse a coragem de chegar até o fim... o que seria dele depois? Como pode se sentir alguem que eu mandei sonhar, que seguiu meus desejos e minha visao das coisas e me apoiou, se depois eu nao tivesse bastante firmeza no que faço, no que desejo, nas ideias e iniciativas que eu levantei? Se eu nao estou realmente convencida em enfrentar algo, a qualquer custo, seja como for, se eu me deixo vencer pelas duvidas e desisto na metade do caminho, o que poderia ser de alguem que caminha ao meu lado?

Penso as vezes nas coisas que meu avo me contava, de quando os Soldados da Colonia enfrentaram uma das poucas invasoes na historia da nossa arvore, desde que lembramos. Quem mandava nos Soldados tinha um nome curioso, Baa'mpz, e todas as vezes que meu avo contava o nome dele saia com um som diferente. Baa'mpz teve que tomar decisoes que mexeram com a vida e a morte dos outros, algumas foram certas e outras erradas, e creio que ele ficou marcado e sentiu tristeza pela vida inteira depois daquilo, pelo tudo que teve que fazer. As historias nao dizem nada sobre como ele se sentia, mas ter a responsabilidade de outras vidas è um peso muito grande, e quando alguem nos apoia ele somente quer saber que fez a coisa certa, que valeu a pena, que seguiu a pessoa certa e as palavras certas.
O que teria acontecido se Baa'mpz tivesse dado um passo para tras e deixado os soldados sozinhos, dizendo que nao era seguro do que estava fazendo? Meu avo me disse que ele nao parou, nao desistiu, nao deu passos para tras nem quando sabia que iria custar muito, nem quando pensava que ele mesmo iria morrer e nao sabia se valia a pena. Ele nao parou porque nao podia, porque se ele vacilasse todos teriam vacilado. Baa'mpz teria traido os esforços dos outros se nao tivesse ido atè o fim, seja como for.
Ele nao morreu, mas quem sabe ele pode ter desejado morrer junto aos tantos outros que deram a vida para segui-lo. A colonia porém sobreviveu, e continua na mesma vida imutavel, na mesma arvore como sempre foi. Tem quem diz que a colonia teria sobrevivido em qualquer caso, entao valeu a pena o sacrificio deles todos?
Meu avo dizia que sim.
Eu nao sou um Soldado, porém. Serei obrigada a fazer algo, mesmo assim? Das minhas decisoes vai depender a minha vida? Elas sao ditadas pelos desejos e sonhos de conseguir algo melhor para mim, e nao para as outras pessoas? Talvez, se tivesse alguem comigo, me seguindo, esses pensamentos poderiam ser diferentes hoje, e isso também me apavora... talvez mais isso do que a solidao ou a ansia pelos riscos. Provavelmente è esse o motivo principal de eu ainda nao ter falado nada para ninguem, e nunca ter tentado compartilhar com alguem essas alvoradas que passo observando o Muro de longe, sozinha, com o olhar perdido alem da neblina.

Free'ts

"Dúvidas"

Novamente aqui, sozinha na frente da alvorada, como nas tantas outras alvoradas que ja vi, e nem me lembro quantas, sentada neste mesmo lugar enquanto a colonia dorme.
O tempo passa e eu estou sempre aqui, com minhas duvidas que, ao inves de diminuir, aumentam a cada dia, e somente as folhas e o orvalho da madrugada compartilham isso tudo comigo.
As duvidas. Esse è o problema. O medo de fazer a coisa errada, o medo de nao ter sucesso, ou que nao valha a pena. O medo de "fazer", sabendo que cada nosso ato provoca uma mudança, e varias consequencias.
Reflito muito ultimamente sobre a luta interna à minha alma, o combate sem pausas entre as Duvidas e os Desejos. Desejamos mudar algo na nossa vida porque somos insatisfeitos dela assim como è, sentimos que falta alguma coisa de importante, mesmo se nao sabemos identifica-la com exatidao, mesmo se è algo que somente vislumbramos de longe, atras da neblina, como o Muro que è o confim do meu mundo conhecido. Desejamos sempre, sonhamos, mas ao mesmo tempo duvidamos de tudo que tem a ver com esses sonhos, com essa necessidade de mudar, porque mudar è arriscado, mudar nos poe na condiçao de enfrentar algo novo, sozinhos, sem ter a certeza de conseguir algo bom.
"O mundo è grande mais do imaginavel, além do muro".
O Grande Bruz falou isso, e eu acredito que seja verdade, sim, e que ele tenha viajado em grande parte daquele mundo imenso do qual falava, e tenha visto tantas coisas que eu nao tenho nem como imaginar, pois desconheço atè a existencia do que ele viu, e nem posso dar formas usando a minha imaginaçao para aquelas coisas todas que eu desejo ver e que para mim ainda nao existem. Nao tenho nem a possibilidade de imaginar, e entao meus sonhos ficam pequenos. Sem conhecimento de nada nao se pode nem sonhar nada, nao se pode criar nada, pois a base para essa criaçao nao temos. Provavelmente a colonia nao sente necessidade de nenhuma coisa diferente da que ja tem, pois como se pode sentir necessidade de algo que nao se conhece? Eu tambem antes nao sentia.
Porém, a insatisfaçao se sente, e creio que isso nao seja somente eu a perceber. A diferença nisso tudo, a grande diferença entre mim e as outras formigas, foi que o Grande Bruz me deu a base para começar a sonhar, ou melhor: me deu uma "direçao" para onde dirigir meus sonhos, me deu uma ideia sobre a qual fazer voar minha imaginaçao, mesmo se ainda limitada.
As duvidas... sao elas o verdadeiro problema. A viagem do Grande Bruz, mesmo se incrivel e importante como eu acredito, acabou igualmente na tela da Senhora Preta, como as vidas normais de muitos seres de aqui, e nao teve diferenças ou poesia nisso. Acabou como tantos de nos, ele que tinha asas e viajou pelo mundo, seguindo o vento, além do Muro. Valeu a pena o voo dele? Foi maravilhosa a vida dele? O tudo que ele viveu antes que eu ouvisse as suas ultimas palavras foi bom e superior ao que eu vivo aqui, sem ultrapassar os confins do meu mundinho, se nao com os pensamentos?
Nos pensamentos as viagens sao sempre boas, tudo sempre tem um sentido e uma direçao certa, tudo parece claro e simples, mas na realidade nao è assim, eu sei. A realidade è o campo de batalha onde se mostra o valor real dos nossos sonhos, para ver se eles resistem, se eles nao vacilam na frente dos problemas e das surpresas, das barreiras que devemos superar durante o caminho.
As duvidas ficam entao. Mas os desejos e os sonhos também ficam, e nao param de me empurrar para conhecer e mudar, para ver algo a mais do que o mundinho onde vivo, e que ja sinto apertado demais.
Porque tantas duvidas, entao, se realmente sinto essa necessidade forte de sair daqui? Nao è somente o medo de que possa me acontecer algo de mal, de perigoso, de arriscado... nao, è mais medo de ficar disiludida, de descobrir que me esforcei muito e arrisquei, abandonei a dimensao velha e segura da minha vida, para nada. Isso è que mais me apavora, eu creio. A possibilidade de que tudo seja ilusao, que meu voo possa ser mais baixo e infeliz do que eu penso, que o vento me leve para algo que nao è mais satisfatorio do que ja tenho, onde eu me encontraria novamente na mesma insatisfaçao de antes, sempre sentindo falta de algo que nao pode vir.

Free'ts