Acordei mais cedo hoje, a luz ainda nao iluminou as gotas de orvalho em cima das folhas, entao fico aqui, ainda na escuridao que daqui a pouco deixarà o seu reino ser conquistado pelo sol.
Fico aqui, sentada, mesmo se eu sei que deveria dormir pra enfrentar melhor o dia que deve nascer, mas como posso dormir em noites como essas?
Os pensamentos nao deixam. Eles nao param, fluem como um rio e parecem ter vontade propria, indo numa direçao especifica e sem freios... eu somente posso segui-los, atè que eles nao decidirem parar.
No escuro è tudo diferente. A neblina parece mais profunda, mais solida, mais proxima. O Muro nao se ve, mas eu sei onde ele està e meu olhar nao erra a direçao, apesar de nao estar vendo de verdade o que minha imaginaçao enxerga tao claramente.
No escuro, os olhos da mente sao os mais poderosos, é por isso que a noite nao me da medo, nao me apavora como às outras formigas do meu povo.
A noite me alimenta. Alimenta meus sonhos, me faz voar alem das barreiras que fisicamente nao vejo e que so existirao de novo quando amanhecerà, quando a neblina ficarà mais leve, a luz entrarà nela e passarà como o vento faz atraves da tela da Senhora Preta.
As barreiras fisicas nao existem se nos nao queremos. O Muro existe porque eu aceito que ele exista... porque eu aceito a ideia de ainda nao querer tentar ultrapassa-lo, e olhar para o que tem alem. As barreiras sao grandes e altas quanto nosso medo quer que sejam, quanto nossa indiferença diz que devem ser, quanto nossos costumes nos ensinam que isto tem que haver, sem nos perguntar nada sobre.
Mas eu me pergunto, sim.
Essas minhas perguntas è que nao me fazem dormir. Que fazem com que os outros me olhem como uma formiga estranha. Os outros... os que nao se perguntam nunca nada.
Nisso tudo, nao tem quem esteja certo ou quem esteja errado. So existem escolhas, sonhos que levam às escolhas. Desejos, que fazem essas escolhas ter sentido.
Qual serà minha escolha, entao?
Ainda nao sei. Na verdade... tenho medo de saber. Ainda è cedo pra que as trevas sejam atravessadas pela luz. Ainda è noite. Ainda meus pensamentos fluem e nao pararam em nenhum lugar especifico, mesmo indo sempre na mesma direçao. Ainda estou aqui, esperando a luz, sem dormir, os pensamentos fluindo livremente. Ainda tenho tempo.
Ainda tenho medo.
Ainda...
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