26/04/2011

"Compartilhar"

Estou aqui, sentada entre as folhas de sempre. Hoje porém nao é um dia como todos os outros pois aconteceu algo inesperado, uma surpresa que creio boa mas que nao sei ainda como interpretar.
Sempre pensei de ser a unica que tem sonhos diferentes, que aproveita do silencio da madrugada para recortar um cantinho de mundo particular. Sempre achei de estar sozinha nisso, a unica que precisa fugir com a imaginaçao... mas hoje escobri que nao.
Inicialmente sentì o impulso de me aproximar, de perguntar algo, verificar, mas depois decidi que nao era uma boa ideia invadir o mundo particular dele. Fiquei entao observando sem dizer nada, parei apenas um tempinho. Ele estava ai, poucas folhas mais em baixo, olhando para a alvorada com o ar de quem a conhece bem. Provavelmente escolhe esses momentos para refletir e deixar fluir os pensamentos enquanto o novo dia filtra atraves da neblina, como faço eu.
Mee'lz.
Assim se chama, se nao me engano: Mee'lz.
Faz parte da colonia, tem mais ou menos a minha idade mas nunca falei com ele. Parece nao ter nada de especial, como afinal todos os outros, e eu também. Fala pouco e faz as coisas que todos os outros fazem entao nunca iria imaginar de ve-lo acordado nessa hora, sentado aì, nas folhas baixas, com aquele olhar entre o sonhador e o melancolico. Ele nao me viu, mas isso nao tem importancia: o que tem importancia è que eu vi ele, e agora sei que nao sou tao estranha como eu pensava.
Nunca falei com ninguem sobre meus pensamentos "diferentes", e minhas alvoradas aqui sozinha. Nunca contei do Grande Bruz e da morte dele, das suas palavras. Sempre tive medo de falar, de compartilhar meus pensamentos com outros que nunca nem pensariam de ultrapassar o Muro e poder viajar além do nosso mundo conhecido. Nunca compartilhei nada disso, até porque poderia ser perigoso por uns lados... mas como desejei pode-lo fazer! Como desejei nao me sentir sozinha e presa dentro uma dimensao que ninguem compreende, e quem sabe como seria poder compartilhar nao somente os pensamentos...

Imaginei as vezes como poderia ser viajar com alguém, fazer esforços juntos e nao ficar sozinha numa empresa que talvez nao tem retorno. Penso que bastaria somente que alguem abrisse os olhos para entender e poder seguir o caminho, mudar a visao e abandonar a velha vida junto comigo. De uma certa forma me fascina o fato de estar sozinha e ser a unica que pode viver uma aventura grande além dos horizontes de todos, mas também seria lindo poder me aventurar numa terra desconhecida com alguem ao meu lado.
Alguem que ultrapasse o Muro comigo.
Quando imagino isso, porem, as duvidas que ja tenho se multiplicam, pois se eu estiver errada, se a realidade fosse muito diferente dos meus pensamentos, o que seria do meu parceiro? Se eu desse um passo para tras, se eu vacilar, se eu nao tivesse a coragem de chegar até o fim... o que seria dele depois? Como pode se sentir alguem que eu mandei sonhar, que seguiu meus desejos e minha visao das coisas e me apoiou, se depois eu nao tivesse bastante firmeza no que faço, no que desejo, nas ideias e iniciativas que eu levantei? Se eu nao estou realmente convencida em enfrentar algo, a qualquer custo, seja como for, se eu me deixo vencer pelas duvidas e desisto na metade do caminho, o que poderia ser de alguem que caminha ao meu lado?

Penso as vezes nas coisas que meu avo me contava, de quando os Soldados da Colonia enfrentaram uma das poucas invasoes na historia da nossa arvore, desde que lembramos. Quem mandava nos Soldados tinha um nome curioso, Baa'mpz, e todas as vezes que meu avo contava o nome dele saia com um som diferente. Baa'mpz teve que tomar decisoes que mexeram com a vida e a morte dos outros, algumas foram certas e outras erradas, e creio que ele ficou marcado e sentiu tristeza pela vida inteira depois daquilo, pelo tudo que teve que fazer. As historias nao dizem nada sobre como ele se sentia, mas ter a responsabilidade de outras vidas è um peso muito grande, e quando alguem nos apoia ele somente quer saber que fez a coisa certa, que valeu a pena, que seguiu a pessoa certa e as palavras certas.
O que teria acontecido se Baa'mpz tivesse dado um passo para tras e deixado os soldados sozinhos, dizendo que nao era seguro do que estava fazendo? Meu avo me disse que ele nao parou, nao desistiu, nao deu passos para tras nem quando sabia que iria custar muito, nem quando pensava que ele mesmo iria morrer e nao sabia se valia a pena. Ele nao parou porque nao podia, porque se ele vacilasse todos teriam vacilado. Baa'mpz teria traido os esforços dos outros se nao tivesse ido atè o fim, seja como for.
Ele nao morreu, mas quem sabe ele pode ter desejado morrer junto aos tantos outros que deram a vida para segui-lo. A colonia porém sobreviveu, e continua na mesma vida imutavel, na mesma arvore como sempre foi. Tem quem diz que a colonia teria sobrevivido em qualquer caso, entao valeu a pena o sacrificio deles todos?
Meu avo dizia que sim.
Eu nao sou um Soldado, porém. Serei obrigada a fazer algo, mesmo assim? Das minhas decisoes vai depender a minha vida? Elas sao ditadas pelos desejos e sonhos de conseguir algo melhor para mim, e nao para as outras pessoas? Talvez, se tivesse alguem comigo, me seguindo, esses pensamentos poderiam ser diferentes hoje, e isso também me apavora... talvez mais isso do que a solidao ou a ansia pelos riscos. Provavelmente è esse o motivo principal de eu ainda nao ter falado nada para ninguem, e nunca ter tentado compartilhar com alguem essas alvoradas que passo observando o Muro de longe, sozinha, com o olhar perdido alem da neblina.

Free'ts

"Dúvidas"

Novamente aqui, sozinha na frente da alvorada, como nas tantas outras alvoradas que ja vi, e nem me lembro quantas, sentada neste mesmo lugar enquanto a colonia dorme.
O tempo passa e eu estou sempre aqui, com minhas duvidas que, ao inves de diminuir, aumentam a cada dia, e somente as folhas e o orvalho da madrugada compartilham isso tudo comigo.
As duvidas. Esse è o problema. O medo de fazer a coisa errada, o medo de nao ter sucesso, ou que nao valha a pena. O medo de "fazer", sabendo que cada nosso ato provoca uma mudança, e varias consequencias.
Reflito muito ultimamente sobre a luta interna à minha alma, o combate sem pausas entre as Duvidas e os Desejos. Desejamos mudar algo na nossa vida porque somos insatisfeitos dela assim como è, sentimos que falta alguma coisa de importante, mesmo se nao sabemos identifica-la com exatidao, mesmo se è algo que somente vislumbramos de longe, atras da neblina, como o Muro que è o confim do meu mundo conhecido. Desejamos sempre, sonhamos, mas ao mesmo tempo duvidamos de tudo que tem a ver com esses sonhos, com essa necessidade de mudar, porque mudar è arriscado, mudar nos poe na condiçao de enfrentar algo novo, sozinhos, sem ter a certeza de conseguir algo bom.
"O mundo è grande mais do imaginavel, além do muro".
O Grande Bruz falou isso, e eu acredito que seja verdade, sim, e que ele tenha viajado em grande parte daquele mundo imenso do qual falava, e tenha visto tantas coisas que eu nao tenho nem como imaginar, pois desconheço atè a existencia do que ele viu, e nem posso dar formas usando a minha imaginaçao para aquelas coisas todas que eu desejo ver e que para mim ainda nao existem. Nao tenho nem a possibilidade de imaginar, e entao meus sonhos ficam pequenos. Sem conhecimento de nada nao se pode nem sonhar nada, nao se pode criar nada, pois a base para essa criaçao nao temos. Provavelmente a colonia nao sente necessidade de nenhuma coisa diferente da que ja tem, pois como se pode sentir necessidade de algo que nao se conhece? Eu tambem antes nao sentia.
Porém, a insatisfaçao se sente, e creio que isso nao seja somente eu a perceber. A diferença nisso tudo, a grande diferença entre mim e as outras formigas, foi que o Grande Bruz me deu a base para começar a sonhar, ou melhor: me deu uma "direçao" para onde dirigir meus sonhos, me deu uma ideia sobre a qual fazer voar minha imaginaçao, mesmo se ainda limitada.
As duvidas... sao elas o verdadeiro problema. A viagem do Grande Bruz, mesmo se incrivel e importante como eu acredito, acabou igualmente na tela da Senhora Preta, como as vidas normais de muitos seres de aqui, e nao teve diferenças ou poesia nisso. Acabou como tantos de nos, ele que tinha asas e viajou pelo mundo, seguindo o vento, além do Muro. Valeu a pena o voo dele? Foi maravilhosa a vida dele? O tudo que ele viveu antes que eu ouvisse as suas ultimas palavras foi bom e superior ao que eu vivo aqui, sem ultrapassar os confins do meu mundinho, se nao com os pensamentos?
Nos pensamentos as viagens sao sempre boas, tudo sempre tem um sentido e uma direçao certa, tudo parece claro e simples, mas na realidade nao è assim, eu sei. A realidade è o campo de batalha onde se mostra o valor real dos nossos sonhos, para ver se eles resistem, se eles nao vacilam na frente dos problemas e das surpresas, das barreiras que devemos superar durante o caminho.
As duvidas ficam entao. Mas os desejos e os sonhos também ficam, e nao param de me empurrar para conhecer e mudar, para ver algo a mais do que o mundinho onde vivo, e que ja sinto apertado demais.
Porque tantas duvidas, entao, se realmente sinto essa necessidade forte de sair daqui? Nao è somente o medo de que possa me acontecer algo de mal, de perigoso, de arriscado... nao, è mais medo de ficar disiludida, de descobrir que me esforcei muito e arrisquei, abandonei a dimensao velha e segura da minha vida, para nada. Isso è que mais me apavora, eu creio. A possibilidade de que tudo seja ilusao, que meu voo possa ser mais baixo e infeliz do que eu penso, que o vento me leve para algo que nao è mais satisfatorio do que ja tenho, onde eu me encontraria novamente na mesma insatisfaçao de antes, sempre sentindo falta de algo que nao pode vir.

Free'ts

16/02/2011

"Ainda..."

Acordei mais cedo hoje, a luz ainda nao iluminou as gotas de orvalho em cima das folhas, entao fico aqui, ainda na escuridao que daqui a pouco deixarà o seu reino ser conquistado pelo sol.
Fico aqui, sentada, mesmo se eu sei que deveria dormir pra enfrentar melhor o dia que deve nascer, mas como posso dormir em noites como essas?
Os pensamentos nao deixam. Eles nao param, fluem como um rio e parecem ter vontade propria, indo numa direçao especifica e sem freios... eu somente posso segui-los, atè que eles nao decidirem parar.
No escuro è tudo diferente. A neblina parece mais profunda, mais solida, mais proxima. O Muro nao se ve, mas eu sei onde ele està e meu olhar nao erra a direçao, apesar de nao estar vendo de verdade o que minha imaginaçao enxerga tao claramente.
No escuro, os olhos da mente sao os mais poderosos, é por isso que a noite nao me da medo, nao me apavora como às outras formigas do meu povo.
A noite me alimenta. Alimenta meus sonhos, me faz voar alem das barreiras que fisicamente nao vejo e que so existirao de novo quando amanhecerà, quando a neblina ficarà mais leve, a luz entrarà nela e passarà como o vento faz atraves da tela da Senhora Preta.
As barreiras fisicas nao existem se nos nao queremos. O Muro existe porque eu aceito que ele exista... porque eu aceito a ideia de ainda nao querer tentar ultrapassa-lo, e olhar para o que tem alem. As barreiras sao grandes e altas quanto nosso medo quer que sejam, quanto nossa indiferença diz que devem ser, quanto nossos costumes nos ensinam que isto tem que haver, sem nos perguntar nada sobre.
Mas eu me pergunto, sim.
Essas minhas perguntas è que nao me fazem dormir. Que fazem com que os outros me olhem como uma formiga estranha. Os outros... os que nao se perguntam nunca nada.
Nisso tudo, nao tem quem esteja certo ou quem esteja errado. So existem escolhas, sonhos que levam às escolhas. Desejos, que fazem essas escolhas ter sentido.
Qual serà minha escolha, entao?
Ainda nao sei. Na verdade... tenho medo de saber. Ainda è cedo pra que as trevas sejam atravessadas pela luz. Ainda è noite. Ainda meus pensamentos fluem e nao pararam em nenhum lugar especifico, mesmo indo sempre na mesma direçao. Ainda estou aqui, esperando a luz, sem dormir, os pensamentos fluindo livremente. Ainda tenho tempo.
Ainda tenho medo.
Ainda...

Free'ts

14/02/2011

"Mais uma"

Alvorada.
Mais uma.
Gotas de orvalho, e meu povo ja andando pelas folhas como todos os outros dias. Barulhos sufocados, leves, cotidianos.
Alvorada novamente... e o Muro fica sempre là, tao proximo e tao longe ao mesmo tempo, dependendo do meu humor.
A neblina na verdade è o que define os confins do meu mundo, e nao o Muro em si. O Muro fica além, fica sempre um pouco além do alcance de tudo, do olhar, dos pensamentos as vezes.
A neblina è o horizonte que eu vejo, a barreira que confunde a minha visao e facilita o esquecimento, o mudar de direçao das minhas reflexoes, para eu endereça-las a mais um dia comum, mais umas horas de luz dedicadas a pensar que tudo que existe è esse mundo entre as folhas, que ja conheço, que me faz sentir parte de algo de seguro e comprovado, que existe, que meu povo costuma chamar de "casa".
A neblina deixa tudo mais facil.
Tudo que nao vejo, que nao enxergo, è mais facil de eu esquecer. Mais facil de deixar num cantinho da minha mente, escondido.
Mais uma alvorada entao, mais um dia como todos os outros. Mais um pedacinho de vida que eu vivo aqui, no mundo de sempre, evitando me aproximar às aventuras que me esperariam alem do Muro là no fundo, onde meu olhar se perde e o que eu conheço acaba... onde começa a imaginaçao.
Mas nao. Mais uma alvorada comum.
Mais uma.

Free'ts

20/12/2010

"A ilha de solidão"

A luz ainda nao chegou entre as folhas, e o orvalho que estou olhando ainda nao parece cristal transparente nessa hora, è mais uma especie de escuridao liquida. A colonia dorme tranquila, e eu estou novamente aqui, refletindo, sem poder dormir.
Essa historia do Muro està se tornando cada vez mais pesada, por alguns lados. Sinto que estou me ilhando de certa forma, e isso nao me faz bem.
Serà que sonhar nao me faz bem? Ou que tenho sonhado demais, e ja começo a perder essa capacidade, e tudo se faz menos intenso, aos poucos... nao sei. O que eu sei por certo, porem, è que estou me sentindo realmente "diferente" de alguma maneira que nao consigo identificar, e nao descobri ainda se estou melhor ou pior do que antes.
Se tornar diferente, seja como for, quer dizer automaticamente que estamos sendo comparados com algo, estamos sendo colocados numa balança. Os outros nos colocam, ou até nos mesmos nos colocamos pra nos pesar e comparar com outra realidade, outros individuos.
Que eu saia ganhando ou perdendo nessa comparaçao, nao faz diferença: a sensaçao de dever calcular meu valor em comparaçao com outra coisa, ja basta pra minha essencia se entristecer.
Nao me sinto bem com essa comparaçao cotidiana, e isso ja começa a ser presente em cada detalhezinho da minha vida, muda meus dias com uma facilidade que nao gosto e me coloca num lugar de solidao onde teho medo de me acostumar a ficar.
Solidao.
Essa è a palavra chave de tudo. Essa a palavra que apavora mais do que todas. Se tornar diferente pode significar solidao? Serei condenada a isso por causa do que eu sinto, de como me sinto, de quem sou agora?
Ser comparados nos torna sozinhos, talvez. Nos lembra que somos diferentes por algum motivo, por alguma coisa que passamos, por alguma capacidade ou defeito que temos... e em bem ou em mal, de qualquer forma isso nos afasta do resto do mundo, ficamos ilhados num lugar onde os outros nao chegam.
Nao sei se sou feliz por ser assim, se sou feliz por ter ouvido as ultimas palavras do Grande Bruz e talvez estar tendo algum tipo de sensibilidade distorcida, ou negativa, pensamentos e impressoes que as vezes parecem pedras dentro de mim.

Talvez existem limites que nao se devem passar, nem com os pensamentos. Coisas que è melhor nao saber ou nao imaginar. Uma vez ultrapassada esta barreira, tudo se torna diferente. As pessoas que nao olham para o Muro vivem bem dentro dos proprios confins, estou me convencendo disso, sao mais felizes, e portanto minha condiçao talvez nao è um privilegio como as vezes penso, mas pode ser mais uma condena, como um peso que vou ter que carregar dentro de mim.

Provavelmente o Grande Bruz nao è a causa de tudo. Eu ja devia ser assim mesmo e ele somente despertou algo que estava dormindo, bem no fundo, e por isso estou vivendo nessa "ilha" que minha cabeça criou, onde minha imaginaçao me prendeu desde que comecei a olhar para o Muro com olhos diferentes, e me tornei diferente... e cada vez que me esqueço disso por um momento, cada vez que sossego um pouco e fico sem pensamentos "estranhos", sempre acontece algo, escuto algo, me falam algo que me faz lembrar desse tipo particular de solidao da qual provavelmente nao poderei mais fugir.
As vezes invejo as outras formigas da colonia, tao tranquilas, tao em paz, dentro da vida e da rotina delas, sem surpresas e sem duvidas sobre nada. Penso que se vive mais felizes sem saber algumas coisas, sem se perguntar nada, so indo para frente e vivendo simplesmente do que se tem facilmente ao alcance.
O que fica ao alcance afasta a vontade de se distanciar, com o corpo e com a alma...
Estou triste hoje pois me parece que ultimamente sonhar è um grande esforço, e as respostas que eu desejo tanto, sempre demoram... e o tempo corre rapido demais, e se perde, como a gota de orvalho escuro que està caindo aqui na minha frente.

Free'ts

18/12/2010

"Vocês são cegos!"

Parei de olhar para o Muro. Quer dizer: parei por um tempo. Se passaram varias luzes e tempos escuros, e dormi e acordei, deitei e acordei sem pensar muito, como as outras da colonia fazem sempre, ou pelo menos me parecem fazer.
Parei de olhar para o Muro por um tempo, presa nas ocupaçoes da tribo exatamente como as outras, e fiquei na rotina de sempre. As folhas nos protegem, as folhas nos asseguram a vida tranquila que meu povo quer, e todos trabalham dentro desse nosso mundo seguro.
Estou refletindo sobre a sensaçao estranha que me da o falar que sou "como as outras". Serà que è tao ruim assim, para mim, achar de ser como todos os outros seres vivos do meu clã? Em toda sinceridade acho que nao, nao vejo isso como algo de negativo, mas de alguma forma me parece pouco, como se faltasse alguma coisa, no fundo, que nao consigo ainda enxergar direito.
Ainda nao tive coragem de conversar com ninguem sobre meus pensamentos e o que a minha imaginaçao me diz. A minha imaginaçao parece ser algo em contraste com a segurança, a rotina de aqui, e tenho medo de que os outros possam me achar perigosa para a colonia. A colonia funciona porque ninguem reclama, ninguem sai do esquema, e tudo sempre continua seguro, como os fundadores da colonia queriam que fosse. Os fundadores porem nao apareceram aqui do nada, entre nossas folhas, suponho eu. Eles vieram de fora, e quem sabe as folhas da nossa bananeira nao eram o sonho deles, algo que eles tiveram que procurar vindo de muito longe... quem sabe eles ficavam imaginando se existisse uma arvore assim em algum lugar, atras de algum Muro que os impedia de olhar alem. Quem sabe eles olharam na epoca antiga para o mesmo Muro que observo eu agora, mas ficavam do outro lado e pensavam como eu!
A imaginaçao, os sonhos... entao nao sao somente algo de abstrato, algo de potencialmente destabilizador e danoso. Os sonhos e os desejos, a imaginaçao, o querer conhecer coisas novas e procurar alem do que ja se sabe poderia ter utilidade pratica e nao somente significar riscos e provocar medo.
Porem, parei de olhar para o muro, mesmo tendo pensamentos assim.
Mesmo nao vendo nada de mal ou de negativo na colonia e no comportamento do meu povo, suponho ter algum detalhe a mais, alguma coisinha a mais que me diferencia e me poe num lugar so meu, levemente separado do pensar comum, um pequeno mundo particular... mesmo continuando minha vida entre as folhas da mesma colonia de sempre.
Parece-me quase surreal que a tal diferença da qual estou falando seja somente o fato de olhar para o Muro coberto de neblina, ai no fundo, e tentar imaginar o que pode existir atras dele, alem da fronteira do meu mundo fechado.
E' tao estranho assim, isso? Devo me preocupar ou devo me orgulhar?
Usar imaginaçao, voar com os pensamentos alem das fronteiras que todos aceitam como normais e obvias, que fazem parte da realidade que ja conhecem e que lhe basta, è algo de tao incomum como me parece?
Eu uso minha imaginaçao para criar as coisas que nao posso ver, mas que desejaria conhecer. Mais reflito sobre isso e mais me parece que os outros, pelo menos a maioria deles, desacostuman-se aos poucos a imaginar o que nao sabem, deixam de sonhar, com a idade... simplesmente, deixam de querer saber mais, deixam de ser curiosos e ficam entre as folhas nas quais sempre estiveram, e està tudo bem assim. Seguro. Parado. Mecanico.
" VOCES SAO CEGOS! " parecia dizer o Grande Bruz a todos nos aquele dia.
As palavras do Grande Bruz ainda ecoam na minha cabeça, como se eu estivesse ouvindo ele ainda agora, gritando da tela da Senhora Preta.
Somos cegos, e realmente somos. Voluntariamente somos.
Parei de olhar para o Muro e virei cega de novo por um tempo, voluntariamente, pois deixei que o que a colonia acha normal fosse normal tambem para mim, em automatico, e fiquei satisfeita somente com isso, sem pedir mais do que isso, nem sequer desejar.
Parei de olhar para o Muro um tempinho, deixei que isso acontecesse por distraçao, talvez fraqueza, e foi um tempinho em que voltei a ser somente mais uma formiga entre formigas, um numero anonimo e igual aos outros que me rodeiam, e nao quis fazer a diferença... e quando digo "diferença" entendo que deve faze-la para mim, nao para os outros. Para mim primeiro, ao menos, e quem sabe um dia isso terà tambem algum significado maior, que possa sair de mim e nao ser mais somente um pensamento "estranho" de uma formiga normal.

Free'ts

14/12/2010

"O muro é tão longe assim?"

A primeira luz filtra entre as folhas do meu reino, de manha, e este è o momento do dia que eu prefiro: as grandes gotas de orvalho viram bolas de cristal, luminosas, transparentes, e nesses momentos me daria vontade de pular dentro delas, mesmo se è perigoso. Mas nao vou faze-lo, è claro, pois meu bom banho de seiva ja è um otimo costume e bem satisfatorio pela manha.
Um novo dia... e olho novamente para o Muro, longinquo, além da neblina. Realmente, è muito longe, sim. Nao que seja impossivel de se chegar, mas pra querer ir deveria se ter muita vontade mesmo, uma motivaçao, e meu povo nao tem.
Mas, eu?
O mundo è grande mais do imaginavel além do Muro, o Grande Bruz falou. Mas, quem me garante que seja lindo, ou seguro como minha colonia aqui na bananeira? Meu povo nunca se aventura para longe, e ninguem pensa em se afastar da nossa casa onde temos tudo, tudo funciona, tudo è seguro.
Sozinhos, afastados, somos mais vulneraveis. Dizem isto o tempo todo, e creio que seja verdade.
Por que, entao, sinto essa curiosidade?
Somente porque o Grande Bruz me disse uma breve frase, antes que a Senhora Preta o mordesse na propria tela?
Uma frase so, pois foi isso. So isso. Ele nao descreveu nada do mundo além da barreira, e quem sabe è por causa disso que ficou marcado tanto assim. Ele nao me descreveu nada, e assim fazendo o mundo além do Muro virou perfeito, pois a minha imaginaçao è que o quer assim, que o constroi da forma que ela quer, ja que nao conheci nada de concreto. Esse è meu medo, apesar da curosidade: e se nao fosse bom? Se minha imaginaçao estivesse errada?
Mas a curiosidade fica, apesar de tudo.
Me pergunto se vale mais seguir o medo, evitar as duvidas pra ficar bem protegidos na nossa casa e no que conhecemos... ou se vale a pena enfrentar uns riscos, nos afastar da nossa propria gente e arriscar falhar sozinhos, para conhecer as coisas que ignoramos e que somente podemos imaginar, até que elas nao estejam ao alcance dos nossos olhos. Esforços e riscos. Sofrimento tambem deve ter. Vale a pena?
Outra pergunta que me faço, è o porque me faço essas perguntas... provavelmente è porque meu mundo, mesmo se seguro e conhecido, começa a ser um pouco apertado. Se tudo estivesse otimo pra mim creio que nao me perguntaria nada, como os outros fazem.
Provavel que seja isso entao: espaço apertado.
Nao que eu seja grande e precise de espaço como aqueles outros gigantes com duas pernas so, que nao precisariam de correr mesmo se parecem sempre andar depressa. Oh, isso nao! Quando falo de espaço nao entendo necessariamente de forma material... e nao é que eu nao goste e nao aprecie meus banhos de seiva, o orvalho luminoso da manha, as folhas e a deliciosa sombra da tarde no meu mundo, mas... è pequeno.
O Muro, de certa forma, se aproxima cada vez mais e isso me da medo, pois deixar de imaginar e querer sempre mais conhecer, me apavora. E' isso o unico problema dos sonhos e dos desejos. Apavoram.

Free'ts

13/12/2010

"O mundo além do muro"

Olhava o mundo a fora, todos os dias, debaixo das minhas folhas, e ficava me perguntando como viviam e olhavam para mim aqueles outros seres, e se mesmo eles me viam, se sabiam que eu estava tao proxima assim. Faziam sempre muito barulho e nas raras vezes em que me aventurava em baixo, na terra, o chao tremia quando eles passavam perto. Seres esquisitos, grandoes porem interessantes; de certa forma invejava aquelas pernas longas deles, mesmo se eram somente duas, porque assim eles podiam em breve tempo chegar até os confins do meu mundo, e ir além do Muro.
O Muro...
Nunca tinha conhecido alguem que tivesse ultrapassado ele, antes de ver o Grande Bruz. Ninguem do meu povo e nem de outra especie que nao tenha asas foi além do Muro, que eu saiba. Ninguem de nos se preocupa com isso, è claro: todos nos vivemos na nossa bananeira desde o tempo que nem os mais velhos se lembram mais, e a maioria nem fica olhando para o Muro. Porem, nem todos puderam conversar com o Grande Bruz, como eu, e talvez é por isso que ninguem se pergunta nada, na minha colonia.
Comigo, porem, è diferente. Eu me pergunto sim.
Aconteceu quando eu tinha somente poucos dias de vida, e isso mudou tudo para mim. Comecei a olhar para o Muro com olhos diferentes desde aquele dia: os confins de tudo que eu conhecia, tao longe là no fundo, a fronteira que ninguem nunca pensou de superar passou a visitar meus pensamentos, e comecei a tentar imaginar o que deve existir além, e se o espaço é realmente tao infinito como o Grande Bruz me disse. Coitado dele... ainda sinto pena, pois nao pude fazer nada para salva-lo. Que perda terrivel para o mundo, pobre Grande Bruz!
«O mundo é grande, além do Muro! Tem terras que nunca acabam e arvores bem maiores do que esta! Eu viajei seguindo o vento e olho voces aqui, cegos, e digo...» mas ele nao pude acabar de me dizer: infelizmente a Senhora Preta desceu pela tela e mordeu o Grande Bruz que estava colado nela, e foi o fim... nao falou mais nada. Porem, o pouco que ele disse ficou na minha cabeça como uma musica: viajar seguindo o vento... alem do Muro!
Decidi que isso iria ser algo de importante para refletir no tempo que viria, era algo que iria fazer a diferencia, antes ou depois.
Seguir o vento...
Por enquanto estou aqui, ainda entre as minhas folhas, e olho para o Muro. Mais um dia.

Free'ts