20/12/2010

"A ilha de solidão"

A luz ainda nao chegou entre as folhas, e o orvalho que estou olhando ainda nao parece cristal transparente nessa hora, è mais uma especie de escuridao liquida. A colonia dorme tranquila, e eu estou novamente aqui, refletindo, sem poder dormir.
Essa historia do Muro està se tornando cada vez mais pesada, por alguns lados. Sinto que estou me ilhando de certa forma, e isso nao me faz bem.
Serà que sonhar nao me faz bem? Ou que tenho sonhado demais, e ja começo a perder essa capacidade, e tudo se faz menos intenso, aos poucos... nao sei. O que eu sei por certo, porem, è que estou me sentindo realmente "diferente" de alguma maneira que nao consigo identificar, e nao descobri ainda se estou melhor ou pior do que antes.
Se tornar diferente, seja como for, quer dizer automaticamente que estamos sendo comparados com algo, estamos sendo colocados numa balança. Os outros nos colocam, ou até nos mesmos nos colocamos pra nos pesar e comparar com outra realidade, outros individuos.
Que eu saia ganhando ou perdendo nessa comparaçao, nao faz diferença: a sensaçao de dever calcular meu valor em comparaçao com outra coisa, ja basta pra minha essencia se entristecer.
Nao me sinto bem com essa comparaçao cotidiana, e isso ja começa a ser presente em cada detalhezinho da minha vida, muda meus dias com uma facilidade que nao gosto e me coloca num lugar de solidao onde teho medo de me acostumar a ficar.
Solidao.
Essa è a palavra chave de tudo. Essa a palavra que apavora mais do que todas. Se tornar diferente pode significar solidao? Serei condenada a isso por causa do que eu sinto, de como me sinto, de quem sou agora?
Ser comparados nos torna sozinhos, talvez. Nos lembra que somos diferentes por algum motivo, por alguma coisa que passamos, por alguma capacidade ou defeito que temos... e em bem ou em mal, de qualquer forma isso nos afasta do resto do mundo, ficamos ilhados num lugar onde os outros nao chegam.
Nao sei se sou feliz por ser assim, se sou feliz por ter ouvido as ultimas palavras do Grande Bruz e talvez estar tendo algum tipo de sensibilidade distorcida, ou negativa, pensamentos e impressoes que as vezes parecem pedras dentro de mim.

Talvez existem limites que nao se devem passar, nem com os pensamentos. Coisas que è melhor nao saber ou nao imaginar. Uma vez ultrapassada esta barreira, tudo se torna diferente. As pessoas que nao olham para o Muro vivem bem dentro dos proprios confins, estou me convencendo disso, sao mais felizes, e portanto minha condiçao talvez nao è um privilegio como as vezes penso, mas pode ser mais uma condena, como um peso que vou ter que carregar dentro de mim.

Provavelmente o Grande Bruz nao è a causa de tudo. Eu ja devia ser assim mesmo e ele somente despertou algo que estava dormindo, bem no fundo, e por isso estou vivendo nessa "ilha" que minha cabeça criou, onde minha imaginaçao me prendeu desde que comecei a olhar para o Muro com olhos diferentes, e me tornei diferente... e cada vez que me esqueço disso por um momento, cada vez que sossego um pouco e fico sem pensamentos "estranhos", sempre acontece algo, escuto algo, me falam algo que me faz lembrar desse tipo particular de solidao da qual provavelmente nao poderei mais fugir.
As vezes invejo as outras formigas da colonia, tao tranquilas, tao em paz, dentro da vida e da rotina delas, sem surpresas e sem duvidas sobre nada. Penso que se vive mais felizes sem saber algumas coisas, sem se perguntar nada, so indo para frente e vivendo simplesmente do que se tem facilmente ao alcance.
O que fica ao alcance afasta a vontade de se distanciar, com o corpo e com a alma...
Estou triste hoje pois me parece que ultimamente sonhar è um grande esforço, e as respostas que eu desejo tanto, sempre demoram... e o tempo corre rapido demais, e se perde, como a gota de orvalho escuro que està caindo aqui na minha frente.

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