A primeira luz filtra entre as folhas do meu reino, de manha, e este è o momento do dia que eu prefiro: as grandes gotas de orvalho viram bolas de cristal, luminosas, transparentes, e nesses momentos me daria vontade de pular dentro delas, mesmo se è perigoso. Mas nao vou faze-lo, è claro, pois meu bom banho de seiva ja è um otimo costume e bem satisfatorio pela manha.
Um novo dia... e olho novamente para o Muro, longinquo, além da neblina. Realmente, è muito longe, sim. Nao que seja impossivel de se chegar, mas pra querer ir deveria se ter muita vontade mesmo, uma motivaçao, e meu povo nao tem.
Mas, eu?
O mundo è grande mais do imaginavel além do Muro, o Grande Bruz falou. Mas, quem me garante que seja lindo, ou seguro como minha colonia aqui na bananeira? Meu povo nunca se aventura para longe, e ninguem pensa em se afastar da nossa casa onde temos tudo, tudo funciona, tudo è seguro.
Sozinhos, afastados, somos mais vulneraveis. Dizem isto o tempo todo, e creio que seja verdade.
Por que, entao, sinto essa curiosidade?
Somente porque o Grande Bruz me disse uma breve frase, antes que a Senhora Preta o mordesse na propria tela?
Uma frase so, pois foi isso. So isso. Ele nao descreveu nada do mundo além da barreira, e quem sabe è por causa disso que ficou marcado tanto assim. Ele nao me descreveu nada, e assim fazendo o mundo além do Muro virou perfeito, pois a minha imaginaçao è que o quer assim, que o constroi da forma que ela quer, ja que nao conheci nada de concreto. Esse è meu medo, apesar da curosidade: e se nao fosse bom? Se minha imaginaçao estivesse errada?
Mas a curiosidade fica, apesar de tudo.
Me pergunto se vale mais seguir o medo, evitar as duvidas pra ficar bem protegidos na nossa casa e no que conhecemos... ou se vale a pena enfrentar uns riscos, nos afastar da nossa propria gente e arriscar falhar sozinhos, para conhecer as coisas que ignoramos e que somente podemos imaginar, até que elas nao estejam ao alcance dos nossos olhos. Esforços e riscos. Sofrimento tambem deve ter. Vale a pena?
Outra pergunta que me faço, è o porque me faço essas perguntas... provavelmente è porque meu mundo, mesmo se seguro e conhecido, começa a ser um pouco apertado. Se tudo estivesse otimo pra mim creio que nao me perguntaria nada, como os outros fazem.
Provavel que seja isso entao: espaço apertado.
Nao que eu seja grande e precise de espaço como aqueles outros gigantes com duas pernas so, que nao precisariam de correr mesmo se parecem sempre andar depressa. Oh, isso nao! Quando falo de espaço nao entendo necessariamente de forma material... e nao é que eu nao goste e nao aprecie meus banhos de seiva, o orvalho luminoso da manha, as folhas e a deliciosa sombra da tarde no meu mundo, mas... è pequeno.
O Muro, de certa forma, se aproxima cada vez mais e isso me da medo, pois deixar de imaginar e querer sempre mais conhecer, me apavora. E' isso o unico problema dos sonhos e dos desejos. Apavoram.
Free'ts
Um novo dia... e olho novamente para o Muro, longinquo, além da neblina. Realmente, è muito longe, sim. Nao que seja impossivel de se chegar, mas pra querer ir deveria se ter muita vontade mesmo, uma motivaçao, e meu povo nao tem.
Mas, eu?
O mundo è grande mais do imaginavel além do Muro, o Grande Bruz falou. Mas, quem me garante que seja lindo, ou seguro como minha colonia aqui na bananeira? Meu povo nunca se aventura para longe, e ninguem pensa em se afastar da nossa casa onde temos tudo, tudo funciona, tudo è seguro.
Sozinhos, afastados, somos mais vulneraveis. Dizem isto o tempo todo, e creio que seja verdade.
Por que, entao, sinto essa curiosidade?
Somente porque o Grande Bruz me disse uma breve frase, antes que a Senhora Preta o mordesse na propria tela?
Uma frase so, pois foi isso. So isso. Ele nao descreveu nada do mundo além da barreira, e quem sabe è por causa disso que ficou marcado tanto assim. Ele nao me descreveu nada, e assim fazendo o mundo além do Muro virou perfeito, pois a minha imaginaçao è que o quer assim, que o constroi da forma que ela quer, ja que nao conheci nada de concreto. Esse è meu medo, apesar da curosidade: e se nao fosse bom? Se minha imaginaçao estivesse errada?
Mas a curiosidade fica, apesar de tudo.
Me pergunto se vale mais seguir o medo, evitar as duvidas pra ficar bem protegidos na nossa casa e no que conhecemos... ou se vale a pena enfrentar uns riscos, nos afastar da nossa propria gente e arriscar falhar sozinhos, para conhecer as coisas que ignoramos e que somente podemos imaginar, até que elas nao estejam ao alcance dos nossos olhos. Esforços e riscos. Sofrimento tambem deve ter. Vale a pena?
Outra pergunta que me faço, è o porque me faço essas perguntas... provavelmente è porque meu mundo, mesmo se seguro e conhecido, começa a ser um pouco apertado. Se tudo estivesse otimo pra mim creio que nao me perguntaria nada, como os outros fazem.
Provavel que seja isso entao: espaço apertado.
Nao que eu seja grande e precise de espaço como aqueles outros gigantes com duas pernas so, que nao precisariam de correr mesmo se parecem sempre andar depressa. Oh, isso nao! Quando falo de espaço nao entendo necessariamente de forma material... e nao é que eu nao goste e nao aprecie meus banhos de seiva, o orvalho luminoso da manha, as folhas e a deliciosa sombra da tarde no meu mundo, mas... è pequeno.
O Muro, de certa forma, se aproxima cada vez mais e isso me da medo, pois deixar de imaginar e querer sempre mais conhecer, me apavora. E' isso o unico problema dos sonhos e dos desejos. Apavoram.
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